Algumas referências para discussão de política e eleições

eacinho

Política e eleições.

A conversa e os debates andam bem acirrados nos últimos tempos. Quão mais próximos chegamos do domingo (dia 26 de Outubro), mas os ânimos se acirram, e mais as pessoas querem defender e colocar seus pontos de vista. Sabemos que, no fundo, é a decisão do voto, um por um, que decidirá a jogada, e então saberemos quem será @ próxim@ presidente do país pelos quatro próximos anos.

Bem, pensando na importância nesse evento, e continuando com os posts sobre política, hoje trazemos pitacos colaborativos sobre as eleições. Mas um pouco diferente: são pitacos-explicações do que os pitaqueiros veem no processo eleitoral, como nos debates ou sobre @s candidat@s.

É um modelo um pouco diferente do que sempre postamos por aqui (geralmente listas de referências), mas achamos interessante porque, no limite, pitacos também podem ser explicações e pontos de vista acerca de um tema. No caso, eleições.

Juntando esse post de hoje, com o último sobre política, vocês têm um arsenal interessantíssimo para tomar suas posições no próximo pleito.

Ah, vale lembrar: o post é bem longo. Mas não se furte de consultar as referências. Elas poderão fazer a diferença na hora da escolha. ;)

Bons pitacos!

 

– Pitacos sobre Debates – por Thiago Lisboa.

Esteve circulando por aí (no primeiro turno) um vídeo que faz um hilário resumo do último debate televisivo entre os presidenciáveis.

Pela quantidade de compartilhamentos, podemos afirmar que o vídeo-resumo viralizou. Sem dúvida, é uma edição engraçadíssima, mas preocupante, pelos seguintes motivos:

1) De certa forma, o vídeo ridiculariza e expõe de forma viral o que já se tornou ridículo há tempos nos debates: a priorização da forma e do discurso em detrimento do conteúdo e fundamentos. Isso vem sendo feito, principalmente, desde 2002, por meio da ação de marqueteiros políticos que trabalham e focam apenas a postura, a oratória e o poder de persuasão (portanto, apenas o discurso) dos candidatos. É isso o que explica, em partes, os malabarismos, cinismos e psicodelias argumentativas por parte dos candidatos, e os exemplos das falas (editadas) de Marina, Dilma, Aécio e Everaldo, não deixam dúvidas;

2) Apesar de não saber se foi essa a intenção dos editores, ao revelar o ridículo e a falta de conteúdo dos debates, o vídeo torna-se assim um ótimo material para análises e reflexões críticas sobre o modo como estamos encarando, pensando, fazendo, reproduzindo a política atualmente;

3) Apesar do vídeo promover essa possibilidade de análise e reflexão, o que vejo na maioria dos compartilhamentos e comentários é apenas gargalhadas, e a concordância tácita de que realmente se trata “do melhor resumo até agora”. Ou seja: constata-se e reconhece-se o ridículo, mas não se vai além disso;

4) Por não ir além da constatação do ridículo, os compartilhamentos e comentários viram a reprodução do ridículo, ou seja: é a viralização pela viralização. E assim vamos reproduzindo o ridículo, sem reflexão alguma;

5) A viralização pela viralização (ou o fato de não se ir além da constatação do ridículo) pode indicar certa inabilidade, incapacidade ou empobrecimento (pra não dizer emburrecimento) das discussões políticas;

6) Ao viralizar o vídeo, reproduzindo-o aos quatro ventos sem nenhuma reflexão, corre-se o risco de viralizar e empobrecer também (pra não dizer emburrecer) qualquer tentativa de discussão e debate político que se paute em conteúdos e fundamentos filosóficos. Ou seja: inviabiliza-se qualquer tentativa de debate e análise;

7) O vídeo tem assim duas faces: uma delas pode provocar a reflexão, a outra pode potencializar a imbecilização das discussões políticas. Pelo que estou vendo aqui no Feed de Notícias e comentários, a segunda face do vídeo está ganhando de lavada. E o mais triste: somos nós que estamos fazendo isso;

8) Sem dúvidas, o vídeo é engraçado. Só que não é engraçado o que estamos fazendo com as possibilidades de discussão e debate político por meio dele;

9) Entendo agora o nível da maioria das discussões e debates travados por aqui.

 

Pitacos sobre pesquisa eleitoral – por Thiago Lisboa.

Prestem atenção no gráfico abaixo… Leiam e depois voltem aqui no texto.

Gráfico Intenção de votos

Interpretações apressadas dirão que quanto mais estudo se tem, menos se vota no PT, concluindo assim que quem vota no PT é ignorante, analfabeto, limitado e não escolarizado. Vi muito isso por aqui.

Nada mais apressado e equivocado. Nada mais falso do que a clássica inversão de causa e efeito. Vale lembrar que estatística é a arte de manipular dados até que eles digam o que você quer, ou a arte de ressaltar apenas os dados que já reproduzem seus preconceitos.

São apenas números, e números por si só não explicam nem causam a realidade. É a realidade que explica os números, e não o contrário. Dito de outra forma: é a realidade a causa dos números.

Explicação rápida, simples, sucinta: de acordo com análises sociológicas da realidade social, é entre o final do ensino médio e no decorrer do ensino superior que se encontra a maior parte da produção, reprodução e difusão do pensamento (e ideologia) da elite e classe média, um pensamento basicamente conservador, politicamente falando. É só perceber o quanto elite e classe média adoram um diploma universitário, odeiam impostos e acham que ética se resume à política da empresas que trabalham, etc.
Considerando esses e tantos outros fatores socioculturais, reproduzidos cotidianamente a todo vapor, é normal ver no gráfico que, quanto “mais estudo”, mais politicamente conservador se é. E por que coloquei “mais estudo” entre aspas? Porque o “mais estudo” não necessariamente significa “melhor estudo”.

Com certeza tudo que está dito aqui vai dar muito “pano pra manga”, provocando discussões das mais acaloradas. Essa é a intenção. Daqui pra frente é com vocês!

 

Pitacos sobre candidat@s

1) Quem entende o Brasil e a candidata Marina? – por Quem entende o Brasil.

Mesmo não tendo chegado ao segundo turno, Marina Silva também é um caso interessante a ser estudado. Ela esteve muito perto, mas… O que deu errado?? Vale a pena analisar seu posicionamento perante os eleitores para tentar entender.

Justamente por isso resolvi não deixar Marina de lado: ela traz perspectivas novas para entender o Brasil. Sem trocadilhos.

Vale refletir antes sobre o mito primitivo destrinchado por Freud/Jung: num tempo mítico pré-histórico os humanos viviam em grupos desorganizados, sendo o poder exercido pela mulher por ser quem gerava abundância. A chefe era a Mãe, em jargão junguiano. Até que.. o homem mais forte do grupo tomou o comando e o exercia interditando o acesso dos demais homens às mulheres. Esse era o Pai.

Vamos desenvolver as ideias em torno desse momento mítico para poder entender Marina. É interessante perceber como Freud chama esse momento de uma ‘tomada de poder’. Porém, toda relação de poder permanente é consentida, como é dado por um postulado muito utilizado hoje em dia apresentado por La Boétie ainda no século 16. La Boétie em seu ‘Discurso da servidão voluntária’, esclarece que a liberdade é que é o estado natural do ser humano, por mais que ela possa parecer angustiante. Pode ser que, em um primeiro momento, o poder se imponha pela força, mas esse estado só perpetua com o consentimento daqueles que estão sob esse poder. Ou seja, os demais membros do grupo (chamados Filhos em jargão psicanálitico) consentiram o poder desse Pai. Por quê?? A resposta mais provável: o medo de alguma ameaça externa. Está mais que provado pela experiência humana que uma organização hierárquica obtém mais sucesso em um conflito. Logo, os Filhos obtinham vantagem especialmente quanto à segurança. (Discutir toda a relação dos Filhos com o Pai é um trabalho muito complexo que é magistralmente simplificado em ‘Psicologia de massas e análise do eu’, de Freud. Por hora o importante é saber desse perigo.) E qual seria o perigo? Provavelmente outro grupo humano ou outros animais. A natureza e também o homem apresentando sua face selvagem.

Esse cenário tenso e conflituoso do mito primitivo vai se reproduzir na trajetória humana até.. quando o imigrante, cansado ou empobrecido pelas sucessivas guerras européias, resolve vir ao Brasil em busca do ideal apresentado nas propagandas: uma terra mansa e dócil, onde ‘se plantando tudo dá’. A fantasia do Paraíso Terreal atravessou séculos e é a base da imagem do Brasil no estrangeiro até hoje. O imigrante, sem identificação possível com sua pátria (que seria como um Pai na psique dele), segue para a nova terra buscando um lugar onde não há mais a Interdição do Gozo, não há mais Pai ou Pátria, nem Lei nem pecado. Ele associa a figura do Pai e todos os reguladores da sociedade ao episódio da Interdição do Gozo. Por isso tem ojeriza a eles: o imigrante quer é gozar. Porém, chegando ao Brasil, encontra inúmeros perigos, tanto vindos das tentativas dos senhores de terras de os prenderem em relações escravagistas, quanto os perigos vindos da natureza e os outros tantos perigos comuns a quem se estabelece em terra estrangeira.

Com temor desses perigos, o imigrante precisou buscar um novo Pai, conforme a fórmula antiga que conhecia. Mas o que ele busca mesmo é o Gozo, quer um Pai temporário, apenas para resolver os primeiros conflitos, sempre na esperança de construir seu pequeno Paraíso Terreal. Ele quer uma espécie de perda temporária, é um investimento. Até hoje é muito comum as pessoas criarem relações baseadas nesse perde x ganha, um pequeno suplício com grandes ganhos, uma vida regrada em troca de um terreno no Céu (representado como um campo de grama aparada onde crianças brincam com leões: a Natureza Ideal, domada), um emprego insalubre por uma aposentadoria tranquila e um pequeno pedaço de terra no interior… Quer um Pai que dome a Natureza Selvagem. Essa relação com a Natureza é um tópico interessante também, pois a Natureza Ideal se opõe à Natureza Selvagem. A Amazônia é um símbolo da Natureza Selvagem. Já a Natureza Ideal é aquela cantada nas poesias escapistas: um sítio com um cavalo e um regato para finalmente viver em paz, longe de todos os conflitos tão naturais das relações que envolvem Pai.

Onde Marina Silva entra nessa história?

Ela veio como um furacão eleitoral, pois canalizou a esperança de terminar todos os conflitos e finalmente estabelecer o Paraíso Terreal tão sonhado pelo imigrante, onde o Gozo seria a única regra. Para o brasileiro, depois da conquista da estabilidade econômica e o fim da fome, o caminho natural era ouvir a própria voz da Natureza Ideal, agora letrada e humanizada, chamando para o Gozo. Todo o medo da Amazônia e seus perigos se dissipou: Marina, com sua fala culta e mansa, mostrava ser possível civilizar-se rapidamente, articular a mais alta política e ainda manter uma relação ‘sustentável’ com a natureza.

Porém, ficam duas perguntas intrigantes: por que ela não conseguiu tamanha ascensão na eleição de 2010? E, se ela representava uma imagem tão forte, por que ela não vingou?

Devemos lembrar que na eleição de 2010 o governo apresentava grandes conquistas, mas elas ainda não se apresentavam tão bem estabelecidas como agora, também havia grandes esperanças de que a continuidade com o PT poderia levar a ainda mais Gozo. Outra questão importante (e controversa) foi a atuação da mídia e das pesquisas, que não deram tanta atenção a Marina Silva, tanto que ela foi a grande surpresa nos resultados. Só aí que ela apresentou-se na mente do eleitor como um caminho possível. E, o fator mais importante, foi a intensa atuação do político mais influente do Brasil: Lula. Ele acompanhava Dilma constantemente e ele, diferente de Marina, era uma imagem já estabelecida e sólida, enquanto a imagem de Marina ainda estava em fase embrionária.

Mas por que, enfim, ela não vingou agora? Pelo mesmo motivo que Lula demorou tanto para vingar: ela não soube representar o papel que os eleitores esperavam. A série de deslizes de sua campanha foram de encontro com todas as esperanças em torno dela. Esperava-se que ela representasse a própria voz da Terra promovendo o fim de todos os conflitos e estabelecendo o Gozo tão esperado pelo imigrante. Ela seria a grande conciliação entre PT e PSDB, bancos e miseráveis, pastores e LGBTs, brancos e negros, ruralistas e natureza. (Alerto que estou dizendo apenas as expectativas em torno dela e não o que ela efetivamente queria ou conseguiria realizar). Porém, o que se viu foi uma falta de habilidade em ao menos contornar esse tipo de conflito durante as eleições. Faltou a ela consistência e explicar aos eleitores como poderia pavimentar esse caminho de conciliação.

Pouco a pouco, episódios desastrosos foram revelando que Marina não conseguia representar o papel dado a ela e as esperanças do eleitor foram minando-se. Como é característico de fenômenos de grupo, ocorreu uma gestação lenta e um efeito rápido: logo que Aécio ultrapassou-a nas pesquisas em apenas um ponto, surgiu uma onda nas redes sociais dizendo que ‘agora o voto anti-Dilma é no Aécio’. Boa parte dos votos migraram para o tucano e restaram ao terceiro lugar apenas os mesmos 20% da eleição anterior, o núcleo duro de marinistas.

Marina faz parte do roll de candidatos do sonho dos brasileiros, ao lado de Joaquim Barbosa. Poderíamos chamar de ‘candidatos totêmicos’, aqueles que apresentam tanta lisura moral que se apresentam como ‘castrados’, digamos, ou seja, incapazes de roubar o Gozo do brasileiro. Apesar dessa vantagem, como qualquer Totem, ela precisava apresentar força para se impor. Ela teve a oportunidade de competir e não soube atuar conforme o papel que a mentalidade brasileira esperava dela. Mais uma mostra de que, no jogo eleitoral, não bastam boas ideias, é preciso saber posicionar-se na psique do eleitor.

 

2) Quem entende o Brasil e o candidato Aécio? - por Quem entende o Brasil.

Há vinte anos, a primeira eleição direta levou a uma disputa acirrada. No páreo, Lula e Collor. Em 92, Contardo Calligaris previu a derrota de Lula em seu livro ‘Hello Brazil’. Pela previsão, alguém que se veste, fala e pensa como operário não poderia ocupar o cargo máximo da nação. Enquanto isso, Collor representava a velha figura do patrão: terno, boa oratória, passeios de lancha etc. Esse episódio revela como é importante para um candidato saber se posicionar na psique do eleitor.

Antes de entender como o candidato se posiciona, é preciso entender o próprio brasileiro.

Contardo Caligarris defende que o Brasil, por sua lógica escravista ainda mal ressolvida, funciona num esquema senhor e escravo. Claro que, dado que a escravidão é um grande trauma na história nacional, fugimos desse tema como se ele fosse capitão do mato. Mas não adianta, essa fuga só faz com que o tema emerja sob outros nomes. Assim é que não falamos em senhor nem em escravo, mas dizemos ‘patrão’ e ‘empregado’, as plaquinhas dizem ‘elevador social’ (para quem participa da sociedade) e ‘elevador de serviço’ (ou seja, para os servos do senhor de escravos), Deus é o senhor e nós seus servos e assim por diante.. o tema volta em diversas simbologias tratadas durante o nosso dia a dia sempre no limite do explícito.

A relação senhor x escravo é um desdobramento do mito primitivo, destrinchado por Freud. É na verdade esse o mito que define a estrutura edipiana do ser humano. Me explico: no livro ‘Totem e Tabu’ Freud conta de um tempo mítico em que a mulher, na figura da Mãe, ocupava lugar central na sociedade e tratava a todos com igualdade e era acessível inclusive sexualmente a todos. Em certo momento, ela se associa ao homem do grupo fisicamente mais forte e ele passa a comandar o grupo com mão de ferro e impede as relações sexuais dos demais homens. O acesso sexual à Mãe é sua forma de demonstrar seu poder. Assim nasceu a figura do Pai e esse momento é a chamada ‘Interdição do Gozo’. O segundo momento do mito ocorre quando os irmãos (chamados de Filhos em jargão psicológico), se associam contra esse Pai e o assassinam. Um período obscuro de culpa e conflitos segue no grupo primitivo. Um ou outro Filho tenta ocupar o lugar do Pai e restabelecer a ordem, mas sem sucesso. Aí surge o primeiro grande momento da criação simbólica humana: o Totem. Para ocupar o lugar do Pai, os Filhos erguem um Totem como símbolo máximo de sua organização social e lembrança simbólica daquele trauma, agora transformado em Tabu, ou seja, algo que deve ser apagado da memória. É nesse momento também que surgem a linguagem e o mito, pela necessidade de tratar simbolicamente desse trauma/tabu. Tanto que esse mito primitivo está contido em TODOS os mitos de criação, só que simbolicamente e por vezes com partes omitidas, como costuma ser qualquer história ne. Assim é que estabeleceram-se as ‘relações totêmicas’, que são basicamente o que rege todas as relações humanas, desde o mito primitivo,passando pelo Édipo até os organogramas das multinacionais.

Logo, no Brasil não seria diferente né. Claro que com todas as peculiaridades tão nossas.

As eleições retomam o trauma do assassinato e substituição do Pai, com todos os conflitos e intrigas decorrentes. Por isso que, para o eleitor brasileiro, é tão importante que a figura presidencial apresente atributos de força, rigidez, perspicácia, pois ronda o medo de que se instale o caos absoluto novamente.

Assim é que o candidato Aécio busca mostrar esses atributos de força em sua atuação.

Dilma ocupa o lugar do Pai atualmente (psicologicamente, o Pai não está ligado a gênero, esse lugar pode ser ocupado inclusive por símbolos, como é o caso do Totem, que é um símbolo construído para ocupar o lugar do Pai). Aécio busca apontar o atual governo como cansado e fraco. É provável que o momento do assassinato do Pai tenha ocorrido quando ele já se apresentava mais velho e cansado, apesar de o mito não revelar claramente esse e tantos outros pormenores. Aécio revive esse momento mítico de fraqueza do Pai, em que o grupo ganha força e se une para o assassinato. Além disso, Aécio busca mostrar-se como o melhor dos Filhos para ocupar o lugar do Pai.

É interessante observar que o Brasil é diferente de outras sociedades disciplinares. Enquanto em outras a disciplina é realizada pelo Pai, convertido em Totem, aqui a disciplina é feita pelo Gozo. Assim é que as pessoas não se revoltam com o rompimento de regras, mas sim com a Interdição do Gozo. O escândalo da Petrobras não incomoda pelo que ele representa institucionalmente, mas por suas cifras e por ser um grande símbolo do Gozo dos brasileiros. Um Gozo que, pelas acusações, tem sido ~roubado pelo PT~. Isso é que enfurece os eleitores.

Aécio reaviva o trauma da Interdição do Gozo e coloca-se como um realinhador da ordem do Gozo. Promete reduzir os impostos, combater a corrupção e reduzir a inflação. Esses podem ser colocados como os maiores símbolos do que rouba o Gozo do brasileiro.

Porém, os escândalos relacionados ao candidato deixam o eleitor confuso. Ele não seria apenas mais um Pai igual a tantos outros? Que engana para roubar o Gozo como todos os outros? Mesmo assim ele reacende a chama da aventura. O brasileiro não quer apenas gozar, ele quer gozar cada vez mais. E aceita o risco para isso com facilidade. Mais: sabe que as maiores oportunidades se apresentam com o risco.

Aécio claramente representa um risco, pois, por maior lisura que ele apresente, ele sempre poderá estar enganando. Apenas figuras totalmente isentas da política eleitoreira, totalmente incólumes e artificialmente fabricadas, como a de Joaquim Barbosa, poderiam apresentar-se como moralmente incapaz de roubar o Gozo. É esse o político dos sonhos do brasileiro. Aécio não é esse político. Por isso, o que ele precisa para ganhar não é mostrar-se honesto. Ele deve se defender sim, mas para mostrar força. E ele tem mostrado essa força inabalável. Falta ele deixar claro o quanto o brasileiro tem tido seu Gozo roubado e o quanto o Pai atual está fraco. Só assim conseguirá adesão suficiente para tomar o lugar do Pai.

 

3) Quem entende o Brasil e a candidata Dilma? – por Quem entende o Brasil.

Em 92, o psicanalista Contardo Calligaris, em seu clássico livro ‘Hello Brazil’, prevê a derrota de Lula, ainda em ascensão. Para ele, não faz sentido na psique dos brasileiros alguém que se veste, fala e pensa como operário imaginar-se no comando da nação. Dez anos depois vimos sua previsão errar e Lula ganha. Mas note que não era o mesmo Lula: agora ele pensa, veste e até tenta falar como patrão. Agora sim ele representava algo inteligível para o brasileiro: Lula era o retrato da ascensão social. (Aposto todas minhas fichas que Duda Mendonça leu Calligaris).

Esse episódio mostra como é importante para um candidato pensar como ele se posiciona na psique dos eleitores. Então, hoje, como a Dilma se posiciona?

Antes seria interessante destrinchar: como funciona a psique do brasileiro?

Contardo Caligarris defende que o Brasil, por sua lógica escravista ainda mal ressolvida, funciona num esquema senhor e escravo. Claro que, dado que a escravidão é um grande trauma na história nacional, fugimos desse tema como se ele fosse capitão do mato. Mas não adianta, essa fuga só faz com que o tema emerja sob outros nomes. Assim é que não falamos em senhor nem em escravo, mas dizemos ‘patrão’ e ‘empregado’, as plaquinhas dizem ‘elevador social’ (para quem participa da sociedade) e ‘elevador de serviço’ (ou seja, para os servos do senhor de escravos), Deus é o senhor e nós seus servos e assim por diante.. o tema volta em diversas simbologias tratadas durante o nosso dia a dia sempre no limite do explícito.

A relação senhor x escravo é um desdobramento do mito primitivo, destrinchado por Freud. É na verdade esse o mito que define a estrutura edipiana do ser humano. Me explico: no livro ‘Totem e Tabu’ Freud conta de um tempo mítico em que a mulher, na figura da Mãe, ocupava lugar central na sociedade e tratava a todos com igualdade e era acessível inclusive sexualmente a todos. Em certo momento, ela se associa ao homem do grupo fisicamente mais forte e ele passa a comandar o grupo com mão de ferro e impede as relações sexuais dos demais homens. O acesso sexual à Mãe é sua forma de demonstrar seu poder. Assim nasceu a figura do Pai e esse momento é a chamada ‘Interdição do Gozo’. O segundo momento do mito ocorre quando os irmãos (chamados de Filhos em jargão psicológico), se associam contra esse Pai e o assassinam. Um período obscuro de culpa e conflitos segue no grupo primitivo. Um ou outro Filho tenta ocupar o lugar do Pai e restabelecer a ordem, mas sem sucesso. Aí surge o primeiro grande momento da criação simbólica humana: o Totem. Para ocupar o lugar do Pai, os Filhos erguem um Totem como símbolo máximo de sua organização social e lembrança simbólica daquele trauma, agora transformado em Tabu, ou seja, algo que deve ser apagado da memória. É nesse momento também que surgem a linguagem e o mito, pela necessidade de tratar simbolicamente desse trauma/tabu. Tanto que esse mito primitivo está contido em TODOS os mitos de criação, só que simbolicamente e por vezes com partes omitidas, como costuma ser qualquer história ne. Assim é que estabeleceram-se as ‘relações totêmicas’, que são basicamente o que rege todas as relações humanas, desde o mito primitivo,passando pelo Édipo até os organogramas das multinacionais.

Logo, no Brasil não seria diferente né. Claro que com todas as peculiaridades tão nossas.

As eleições retomam o trauma do assassinato e substituição do Pai, com todos os conflitos e intrigas decorrentes. Por isso que, para o eleitor brasileiro, é tão importante que a figura presidencial apresente atributos de força, rigidez, perspicácia, pois ronda o medo de que se instale o caos absoluto novamente.

Portanto, ainda que sendo mulher, a figura presidencial precisa apresentar esses atributos ditos masculinos, pois ela estará ocupando o lugar do Pai. Inclusive arriscaria dizer que Marina não foi para o segundo turno por não ter apresentado essas características.

(Entra aqui em paralelo uma discussão espinhosa do Feminismo, que acusa as próprias mulheres de colaborarem com a opressão e se masculinizarem para ascenderem. Acusam-nas de estarem cedendo ao machismo, e dizem que isso não tiraria nunca o Feminino de seu lugar de inferioridade. Para tentar ocupar um ligar de destaque, o lugar do Pai, elas estariam abandonando sua condição de gênero e isso seria trair o movimento. Mas, o que seria Feminino e o que seria Masculino? Alerto que não é o objetivo discutir a questão aqui, apenas apresentar e discutir o cenário tal qual ele é e não como poderia/deveria ser).

Não é à toa que Dilma apresenta-se apenas de terninho e tem fala durona: ela está buscando mostrar-se como apta para ocupar o lugar do Pai. Ao mesmo tempo, ela busca fundir sua imagem à de Lula, como se fossem um só, fundindo todos os doze anos de governo não só para representar uma continuidade das conquistas mas para fundir-se completamente à imagem de Lula e ainda mostrar força. Ao mesmo tempo, Lula não tem aparecido tanto, pois isso poderia levar o eleitor a imaginar que, se a candidata está precisando da ajuda dele, é porque não é tão forte assim. Vale ressaltar que, após passar mal no meio de um debate, Dilma procurou rapidamente, em apenas alguns minutos, apresentar-se de pé, em público, sorrindo e mostrando todo seu vigor.

A força do Pai é algo importante, mas o personagem mais importante do mito totêmico no Brasil na verdade é o Gozo. O episódio da Interdição do Gozo promovida pelo Pai é o momento mais traumático para nós. Por isso o discurso de Dilma tenta mostrar o quanto a mesa do brasileiro tem estado cheia nos últimos doze anos e busca garantir que vai encher mais. Ou seja, ela promete o Gozo nosso de cada dia, enquanto acusa o outro candidato de ser quem vai promover a volta da Interdição do Gozo.

Um episódio que está atrapalhando a criação dessa imagem é o caso de corrupção na Petrobrás. Quando a mídia diz que ‘o PT roubou a Petrobrás’, há uma evocação imediata do episódio da Interdição do Gozo. O eleitor fica confuso. O PT não era quem distribuiria e garantiria o Gozo? Afinal, quem estaria mentindo? Estão lá para preservar meu Gozo ou o estão me enganando para roubar meu Gozo às escondidas? E instala-se a desconfiança, que é algo natural para o histérico.

A falta de ação da ainda Chefe da Nação diante desse cenário enfurece. Nosso eleitor mais profundo na verdade não quer respeitar as instituições democráticas, não quer investigação, não quer presunção da inocência, não quer Estado Democrático de Direito. Ele quer mesmo é que se volte aos primeiros meses turbulentos do governo Dilma em que, à menor suspeita, cabeças rolavam a rampa do Planalto.

Um parênteses precisa ser aberto aqui. Podemos perceber que o tempo entre o episódio da Interdição do Gozo e o consequente assassinato do Pai são o intervalo do mito mais vivo na na mente do brasileiro. Psicanalistas dizem que ‘falta Pai no Brasil’, porque o brasileiro coloca mais atenção ao Gozo que à figura do Pai. Diferente de outras sociedades disciplinares, a disciplina brasileira está direcionada sempre a sacrificar a si ou ao Pai pelo seu próprio Gozo e não o contrário. As pessoas que se sacrificam por uma religião geralmente não o fazem por acreditar ser eticamente melhor, mas por um Gozo futuro muito maior. Então a ligação com o Pai nunca é aprofundada para que sempre possa ser desfeita quando conveniente. Daí também a dificuldade em estabilizar-se em uma religião ou dedicar-se com plena convicção. Há sempre uma desconfiança. O objetivo do brasileiro é sempre manter o clima de intriga, tensão e medo. Esse era o clima característico daquele intervalo de transição entre o velho Pai e o novo Pai. O brasileiro acredita que seu Gozo está mais garantido é nesse período. ‘Confiar desconfiando sempre’, dizem. Essa estagnação no estágio de transição é característica da histeria, por isso Calligaris diz do Brasil como a ‘nação histérica’. Ainda: o brasileiro, como todo escravo ou todo Filho, nutre secretamente o desejo de ocupar o lugar do Pai e esse período de intrigas se apresenta promissor para isso. Mas aí vem a desconfiança e o medo: ele não confia nem em si e também não se acredita forte o suficiente para ocupar o lugar do Pai.

O brasileiro não quer apenas gozar. Ele quer gozar sempre mais. Assim, o jogo eleitoral de prometer manter o mesmo Gozo dos doze anos não rende muito. O brasileiro prefere os riscos e a instabilidade, pois sabe que é assim que se forjam as maiores oportunidades. É o que falta à candidata Dilma: aproveitar tanta instabilidade/oportunidade do período eleitoral para mostrar que ela não é só mais uma querendo roubar o nosso Gozo e que ela pode fazer os brasileiros gozarem ainda mais.

 

Ufa!!! Bastante coisa, não? Gostaram dos pitacos? Têm mais a complementar? Deixem seus comentários abaixo!

Bons votos e bons pitacos!

 

Pitacos por:

Thiago Lisboa e Projeto Quem entende o Brasil.

Pitaqueiros interessados em política.