8 referências de filmes com representação feminista

pitacodemia-filmemulhere-capa

Pitacodemia na área com novos pitacos para vocês! E dessa vez, estamos com uma lista recheada de belas referências para tocar em um assunto importante: representação feminista (ou seja, feminina empoderada) no cinema.

Com a colaboração excelente (e muito pessoal) da ativista Stephanie Ribeiro, trazemos 8 referências para quem deseja conhecer mais sobre filmes que trazem mulher representada, seja pela dinâmica mais complexa de construção de personagem, seja por seu protagonismo na película.

Bom, deixamos a palavra com Stephanie, que apresentará cada uma das referências :) Bons pitacos!

 

pitacodemia-filmemulhere-entrenos2

 

Filme é uma das coisas que mais gosto e assisto. Entretanto, no que diz respeito a representação feminista, deixa muito a desejar… A maioria reproduz machismo, e pior, muitos se esquecem de que por exemplo, mulheres negras existem. Mesmo o cinema nacional a participação de mulheres como eu é mínima, como indica essa pesquisa.

Por isso parti para os filmes independentes, neles consigo encontrar mais representatividade feminina empoderada. Querendo compartilhar meus pequenos grandes achados, estou escrevendo aqui para indicar 8 filmes que amo e que são pouco conhecidos.

pitacodemia-filmemulhere-ceusuely2

 

Vamos aos pitacos:

1) Etz Limon (Lemon Tree).

Um dos meus achados preferido, esse filme é uma metáfora do conflito entre Palestina e Israel. Uma mulher Salma Zidane (Hiam Abbas) palestina, que possui uma plantação de limões torna-se vizinha do Ministro de Israel, e por isso, o seu limoeiro vira alvo – numa hipótese, ele seria um potencial esconderijo para terroristas.

pitacodemia-filmemulhere-lemontree

Salma

O filme é poético em todos os sentidos, narrativa, fotografia, diálogos. Entretanto ele entra aqui na lista porque gira em torno de duas mulheres Salma e Mira (Rona Lipaz-Michael, que interpreta a mulher do Ministro de Israel). Ambas estão em lados opostos, mas se identificam pelo olhar e pelo apoio mesmo que não direto. Salma luta pelo seu limoeiro sozinha, é uma mulher forte e solitária. O marido morreu e os filhos não só foram embora como não a apoiam nessa batalha. Ela é destemida, fala pouco durante o filme mas é de uma presença marcante pelo seu olhar. Não luta só pelo que acredita, mas pela sua identidade, liberdade e direitos.

Estou completamente encantada com essa atriz, e Mira surpreende ao questionar seu marido, não só durante o filme todo diretamente para ele, mas publicamente ao expor sua opinião que vai contra o que ele defende, em solidariedade àquela estranha com a qual ela tanto se identifica. Elas estão unidas de alguma forma e isso fica nítido no filme, o que eu considero a maior virtude desse enredo.

Observação:  É um filme do diretor israelense Eran Riklis, que vale a pena ficar de olho no que ele faz! O filme não assume um lado, não é sensacionalista e é baseado em uma história real.

 

2) Monsieur Lazhar (O que traz boas novas).

Foi o meu preferido dos que vi nas férias, a morte é constante nesse filme, ela é o ponto inicial, uma professora que se assassina na sua sala de aula e um aluno é o primeiro a encontrar. O filme traz diversos universos, os alunos, o professor Bachir (Mohamed Fellag) que não é professor, a professora do outro ano, tudo e leve por conta da forma que é filmado e denso pelo assunto que traz ao mesmo tempo, já que a dor da morta é o ponto que une todas essas vidas naquele ambiente escolar.

Bachir e Alice

Bachir e Alice

O meu destaque é para a personagem Alice (Sophie Nélisse), para mim o ponto central do filme por sua maturidade e busca pelo aprendizado mesmo que tão jovem, ela é brilhante, e tenho certeza que é feminista! Até porque uma das cenas mais legais do filme é quando a mãe parece de uniforme de trabalho e todo mundo aposto, que imaginou que era uma aeromoça, mas ela é pilota! Nada contra a profissão de aeromoça, porém ela aparecendo vestida para o trabalho e falando que vai viajar e só depois falando que é pilota, tem uma força para quebrar estereótipos dos empregos que são destinados a mulheres e os que não são, no imaginário machista.

Outra coisa que gosto muito na Alice, é que mesmo ela demostrando a solidão de ver a mãe trabalhando muito, e tendo pouco tempo para ela. A menina é um exemplo, eu cresci só sendo cuidada pela minha mãe como ela e me apegando em livros, revistas e filme, a presença da minha mãe era constante mesmo que distante e ser filho de uma mãe “solteira” não implica “maus filhos”. A Alice mostra isso e a mãe que trabalha por elas, se preocupa com a filha, numa conversa entre ela e o professor isso fica nítido, outro fato que me identifico, mesmo com uma rotina de dois empregos minha mãe sempre estava em todas as reuniões da escola.  O filme mostra uma mulher forte, que literalmente é uma criança.

Observação 1: A fábula do final é maravilhosa! Ah o áudio original é em francês (amo) mas engana-se quem pensa que é Francês: o filme é Canadense! Sério: comecem a se ligar mais nas produções de Canadá. ;)

Observação 2: Como trata do ambiente escolar, ele foca nas diversas realidades de cada aluno, como do menino que não prestava atenção nas aulas porque tinha fome.

 

3) Sonhos roubados.

Sabrina, Daiane e Jéssica

Sabrina, Daiane e Jéssica

Jéssica (Nanda Costa), Daiane (Amanda Diniz) e Sabrina (Kika Farias) são as protagonistas desse filme, ambas negras, pobres e favelas, que fazem da prostituição algo corriqueiro de suas vidas. Tem temas muito fortes sendo tratados o primeiro o abuso sexual dentro de casa, a maternidade na adolescência negra e pobre, o abandono paternal, a imposição estética branca e a busca por se enquadrar e o desejo por afeto enquanto mulher e negra. Tudo naquela realidade em que sonhos são roubados, a vida de meninas que têm responsabilidades de adultos. Jéssica é o destaque para mim, mas esse filme é o que indico sempre que algumas pessoas querem “entender” a realidade de mulheres negras no Brasil.

Quando seus sonhos são roubados, falar de mérito ou supor que racismo e machismo não existem chega a ser cruel. Esse filme, além de lindo e realista, tem personagens negras que tem vidas que se assemelham muito com o que muitas de nós passamos e vivemos.

Observação 1: A forma como a prostituição é tratada sem preconceitos e ao mesmo tempo sem aquele ar de glamorização, feat Bruna Surfistinha.

Observação 2: A música cantada pela Maria Gadú com mesmo adoro, porque é batida de funk.

 

4) Lés Adoptes.

O assunto é perdas e aproximação, Mariane perde sua família e adotada pela mãe de Lisa, uma amiga, e elas são irmãs, a união das três é inegável, mas principalmente das duas irmãs e eu sei que todas são feministas! Certeza! O que acontece no filme é que Marine se apaixona e esse envolvimento a distancia da irmã, e essa se vê ameaçada. Não rola aquelas disputas bobas de filmes comédias românticas hollywoodianas e sim uma segunda perda, gradual e uma nova aproximação e realidade, culminando em uma nova família.

pitacodemia-filmemulhere-lesadoptes

A minha personagem preferida é Lisa, interpretada por Mélanie Laurent, que atua, dirige e tem uma música no filme. Ela é sensacional e gosto bem da sua personagem. O que me agrada mais é a relação entre as 3 mulheres e não propriamente o amor romântico entre Marine e o cara perfeitão francês. A Lisa é real, e não é clichê. Gosto quando retratam mulheres assim!

Observação 1: Adoro todas as roupas usadas por todas as personagens no filme!

Observação 2: I Might Float a música do Syd Matters que toca no final, tornou-se uma das minhas preferidas.

Ah, o filme está no Netflix!

 

5) O céu de Suely.

Dos nacionais é um dos meu preferidos a história é basicamente: Hermila (Hermila Guedes), tem a minha idade (21 anos) e é uma menina do interior do Ceara e o filme começa com ela voltando de São Paulo, onde foi atrás de condições melhores, ou seja, fala da situação dos migrantes.

pitacodemia-filmemulhere-ceusuely

Porém, ela tem um relacionamento e desse nasce um filho, o pai da criança promete voltar pro Ceará com ela, mas só depois, e esse é o depois que nunca chega. Ela almeja mudar sua vida e pensa em uma nova viagem, dessa vez para o Rio Grande do Sul, só que para isso precisa de dinheiro e então recorre a prostituição, adotando o pseudônimo de Suely, e resolvendo rifar o próprio corpo entre os homens da cidade.  Ela que já era uma mulher que distinguia dos demais da cidade por conta de sua postura e forma de ver o mundo, acaba virando assunto.

Sempre vejo essa história pensando: Quantas Hermilas não estão por ai, tão nova e tão cheia de responsabilidade, com sonhos roubados também? Entender a situação da mulher brasileira, é ver esse e o outro filme nacional que citei aqui. As pessoas precisam parar de achar que ser mulher no Brasil é fácil, principalmente quando se é pobre como nesse caso. A conversa dela no final com a vó dela no filme também é emocionante, parece que ela sabe o que vai acontecer.

Observação 1: O personagem do ex namorado dela, me irrita, acho ele abusivo e controlador. Ele tentando impedir de realizar seu desejo no final, é a prova disso.

 

6) La Délicatesse (A Delicadeza do Amor).

Audrey Tautou está linda como sempre, me derreto nela. Nesse filme, ela é Nathalie, uma personagem com um ar mais carregado, até porque a história é basicamente de um casal fofo e perfeito, que num dia ele morre e ela se vê enfrentando o luto. Eu gosto desses filmes que falam da morte (já deu para perceber).

pitacodemia-filmemulhere-adelicadezadoamor

Nesse caso, ela assume uma postura de focar no trabalho e  torna-se bem sucedida, e  se apaixona novamente por um dos seus colegas de trabalho.

Eu gosto da inversão que acontece nessa “comédia romântica”, na maioria delas a mulher que tem que ~entender~ o sofrimento do homem, ela que é “inferior” no posto de trabalho, nesse filme não ela está sofrendo, ela é a chefe, ela assume o controle das situações, ela se abre para uma nova relação, e ele tem medo de se envolver e foge literalmente, mas acontece e é tão fofo, meigo, poético. Também gostaria de me esconder nos corações de Nathalie.

Observação: O assédio do chefe dela me irrita muito!

Ah, esse filme está no Netflix!

 

7) Pariah.

Eu vi esse filme num desses dias frios de agosto e achei ele tão lindo, tocante e relevante no contexto feminista porque trata da história de uma menina negra, lésbica numa família tradicional e como ela enfrentou não só suas inseguranças, medos pessoais, mas a família num processo de exclusão social do mundo com ela e de busca de identificação e aceitação.

 

pitacodemia-filmemulhere-pariah

Isso tudo se soma a um relacionamento que e construído ao longo do filme e desmorona porque a sociedade é heteronormativa, e dentro disso duas negras se relacionando é uma afronta enorme, e esse enfrentamento dentro do contexto delas de adolescentes ganha um outro peso, e até compreensível a atitude da outra moça.

Enfim, eu torci pra Alike em todos os sentidos, e no fim ela mostra toda sua força tomando as rédeas da sua vida e ao mesmo tempo fragilidade, em um só poema. “Um coração partido se abre para o nascer do sol. Rompendo-se também se abre, e eu estou quebrada. Estou aberta. Nos rasgos a nova luz vai entrar (…) Vejo a luz do amor brilhando através de mim. Brilhando através das minhas rachaduras. Através das lacunas. (…) Eu não estou quebrada. Eu estou livre.” Pariah acaba sendo mais um filme que mostra a realidade da tristeza e da força, que no fim paira a vida de mulheres negras.

Observação: Nesse filme, a mãe acaba sendo a figura mais severa. Isso me dói muito, muitos filmes e enredos mostram isso, esse no caso é uma história real, mas como é uma característica presente em muitos filmes, acho que acaba padronizando na ideia do pai compreensivo, mesmo que nesse enredo ele seja um grande machista.

 

8) Entre nos.

Queria encerrar com esse que talvez de todos seja um dos mais fortes, no que diz respeito à história.  Mariana se vê sozinha num país onde nem fala a língua natal, por conta do marido, que não só leva a família nessas suas viagens/buscas como na última abandona os dois filhos e a mulher e vai viver em Miami.

pitacodemia-filmemulhere-entrenos

Consequência disso, Mariana se vê sozinha, com dois filhos, sem dinheiro, chegando a morar em situação de rua, e grávida de um terceiro filho, esse que ela resolve abortar, na cena mais forte do filme. Os conflitos particulares da personagens, do filho que tem que assumir um papel que não é dele, e mostrar uma maturidade imensa, para uma criança. Tudo faz essa ser a minha dica principal, a cenas do aborto e o posterior disso mostram a realidade por trás desse ato que muitos que são contra a legalização aqui no Brasil desconhecem.

Paola Mendoza, atua como Mariana, dirige e assina o roteiro! Maravilhosa!

Observação 1: Eu chorei muito nesse filme, acho que foi o que mais me tocou, vi na Mariana um pouco  da minha mãe, ela foi abandonada pelo meu pai e hoje tudo que eu sou devo a ela. Acho que, no fundo, demos a volta por cima.

Observação 2: É baseado em fatos reais.

Ah, esse filme também está no Netflix!

Esses são meus pitacos, não sou nenhuma crítica de cinema, mas sou apaixonada por filmes assim como por mulheres e suas histórias.

pitacodemia-filmemulhere-ceusuely3

E aí, gostaram dos pitacos? Essa lista está bem boa! Tem alguma sugestão para complementar? Deixe seus pitacos abaixo ;)

Bons pitacos e até a próxima!!

 

Pitacos por:

Stephanie Ribeiro

Estudante de arquitetura e urbanismo, é militante feminista interseccional. Escritora inveterada, colabora para vários portais como Blogueiras Feministas, Capitolina, Confeitaria e Os Colunáveis, além de ser editora do Afronta e da Imprensa Feminista.