7 referências sobre comida

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Comida. Um tema importantíssimo em nossas vidas, mas que muitas vezes na mídia ou redes sociais não passa de artigos ou postagens sobre gastronomia, um serviço ou algo mais pontual. E refletir sobre comida? Você já pensou nisso?
Os pitacos de hoje são exatamente sobre esse assunto. Com a belíssima contribuição de Eduardo Shimahara, trazemos 7 referências para ler, se aprofundar e refletir sobre a temática. Bom, vamos deixar o post nas mãos de quem entende do assunto, e passamos a palavra para Shima (como ele é conhecido), que contextualiza sua relação com o tema. Bons Pitacos!

Eu sou o típico cara que viveu muitas vidas em uma só. Acho isso um privilégio.
Tive que tomar decisões difíceis e não me arrependo de nenhuma. Larguei uma incrível (financeiramente) carreira de engenheiro mecânico e dei um salto rumo ao desconhecido ao aceitar um convite de sete amigos que tinham acabado de fundar uma pequena consultoria.

Não sei dizer se poderia ter sido diferente, mas a pequena consultoria se transformou no 6o maior grupo de ensino superior privado no Brasil 10 anos depois.

Como se não bastasse, larguei tudo isso de novo, percorri o mundo em busca de educação “diferente” com mais três super amigos no educ-acao.com e acabei pousando em uma das instituições que considero das mais inovadoras no mundo, o Sustainability Institute na África do Sul.

Aqui, estou concluindo um Mestrado que junta teoria e muita prática. O tema? Algo do nosso dia-a-dia. Comida.

Tenho lido muita coisa bacana e muita coisa deprimente sobre nosso sistema de comida atual e posso afirmar, com tranquilidade, que tem algo muito errado com um sistema que, de um lado, é controlado por megacorporações que dizem que precisamos produzir mais comida e, por outro lado, jogamos fora algo entre 30% e 50% de todo o alimento produzido no mundo. Sim, tem algo muito errado neste sistema que conta com mais de 1 bilhão de pessoas em estado de total desnutrição e do outro lado, mais de 1 bilhão de obesos. Como diria um dos autores mais ácidos e cortantes da atualidade: “Se você não é um executivo da indústria alimentícia, o sistema de comida não está funcionando para você” (Patel, 2012).

Alguns dos livros que me inspiram, ou piram…

Vamos aos Pitacos:

1) Just Transitions – Explorations of sustainability in an unfair world – Mark Swilling e Eve Annecke (2012):

Ainda sem tradução para o português, este é um dos melhores livros que já li sobre este tema debatido de modo tão raso. Hoje, bastou e economizar água pra ser chamado de “ecológico” ou anda dizer que um food truck de temakis que economiza energia é sustentável, quando na verdade o seu cardápio deveria ter mais atenção sobre as espécies que estão sendo servidas. O livro de Swilling e Annecke traz como base as principais crises que já enfrentamos e as consequências de seus entrelaçamentos, apontando no final, exemplos reais (muitas vezes liderados pelos próprios autores) que podem inspirar ação.

 

2) Stuffed and Starved – The hidden battle for the world food system – Raj Patel (2012) :

Traz uma perspectiva ácida com pitadas de humor negro sobre como enormes corporações dominam completamente nosso sistema de comida com um único objetivo : fazer muito dinheiro. O plano não tem nada a ver com nutrir a humanidade ou oferecer comida de qualidade a preços mais acessíveis. Muito pelo contrário, pensamos que temos escolha frente às diversas marcas das gôndolas de mercado mas, na verdade, temos pouquíssima escolha visto que quase todas as marcas pertencem a um punhado de corporações internacionais que dominam desde o processo de produção das sementes (estéreis) geneticamente modificadas para resistir a pragas até a localização estratégica dos produtos nas gôndolas de supermercado num sistema que se assemelha a um leilão imobiliário. Enquanto nos afogamos em alimentos que são basicamente constituídos de milhos e seus derivados, nos afastamos da mesa e do convívio em torno dela.

 

3) Civic agriculture – Reconnecting farm, food and community - Thomas A.Lyson (2004) :

Uma nova forma de fazer agricultura virá de baixo para cima e não de cima para baixo, afirma o autor deste interessante livro que explora este novo termo “Agricultura Civica”, numa alusão a algo muitas vezes invisível quando se trata de cultivar seu próprio alimento. Plantar sua própria comida é um movimento cidadão que se caracteriza por uma rede de produtores que se fortalecem economicamente, costurando um tecido social e que tem como premissa, a agricultura praticada de forma “sustentável” através de técnicas que não envolvam elementos da conhecida “HEI Agriculture – High External Input Agriculture”, caracterizada pela adição maciça de insumos químicos, sejam eles fertilizantes, herbicidas, sementes geneticamente modificadas.
O movimento de agricultura urbana muitas vezes se espalha despercebido e ridicularizado mas sem dúvida vem crescendo e tomando forma. Mercados e cooperativas que vendem direto da fazenda, são uma realidade em diversas cidades espalhadas pelo globo e fazem parte de uma revolução silenciosa em torno do alimento.

 

4) World Hunger – twelve myths – Frances Moore Lappé, Joseph Collins, Peter Rosset (1998) :

Os corajosos autores descrevem de maneira lúcida e clara diversos mitos propagados principalmente pelos gigantes do agronegócio, obviamente com interesses excusos. O primeiro mito desmonta a crença de que não temos alimento suficiente para alimentar tantas pessoas e portanto precisamos produzir mais. A partir deste mito, outros se desdobram e curiosamente apontam na mesma direção, como é o caso do mito de que a “Revolução Verde” que é o nome dado ao pacote de agricultura industrial onde figuram insumos químicos diversos, sementes geneticamente modificadas, irrigação, empréstimos a fazendeiros (que muitas vezes se endividam e não conseguem pagar os bancos) é a solução para um mundo faminto. Ou ainda o fato de que para produzir comida, o dano ambiental é algo praticamente inevitável e necessário. Embora relativamente antigo, o livro ainda é bastante atual e muitas de suas informações se confirmam em tempos atuais através de novas pesquisas.

 

5) Waste – Uncovering the Global Food Scandal – Tristran Stuart (2009):

Ao longo de quase uma década, o autor mapeou o resíduo alimentar nos Estados Unidos, Inglaterra e outros países para trazer a público um fato que muitos desconhecem, a gigantesca quantidade de alimentos que são desperdiçados pelas mais diversas razões antes de chegar ao estômago humano. Desde imensas plantações de tomate, laranjas, entre outros, literalmente deixadas para apodrecer porque seu preço não atingiu o desejado para venda, até uma imensidão de produtos já processados e descartados das gôndolas de supermercado. O mais interessante do livro porem, é a reflexão trazida sobre o desperdício de toda uma cadeia. A comida em si é apenas a “ponta do iceberg”. Se apenas metade do residuo alimentar nos EUA por exemplo fosse usado para alimentar pessoas, quase um bilhão de pessoas poderiam sair da zona de desnutrição. Mais do que isso, imagine a área e insumos totalmente desperdiçados para produzir lixo. Segundo o autor, se usássemos a área atualmente utilizada para cultivar lixo para plantar árvores por exemplo, neutralizaríamos algo entre 50% e 100% de toda a emissão de gases de efeito estufa. A “Institution of Mechanical Engineers” lançou no inicio de 2013 o relatório “Waste not, want not” que confirma os números de Tristran e aponta que algo entre 30% a 50% de toda a comida produzida no planeta é descartada antes de atingir o estômago humano.

 

6) Cradle to cradle – remaking the way we make things - William McDonough e Michael Braungart (2002):

Neste incrível livro, os dois cientistas e ativistas abordam de forma bastante crítica este “movimento” chamado “sustentabilidade”. Para eles, menos pior não é a mesma coisa que bom.
Num oceano de desinformação propagado por mídia, leigos e ativistas muitas vezes tolos e inocentes, o livro surge como um porto “mais seguro”.
Hoje praticamente tudo o que produzimos foi projetado segundo um modelo “cradle-to-grave”, ou seja, usamos e depois literalmente jogamos no lixo. Obsolescência programada é levar em consideração no projeto, o fato de produzirmos algo com uma vida útil (muitas vezes curta) com o único objetivo de estimularmos o consumo (e o lucro). Sua impressora quebrou? Compre outra! É mais barato (e muitas vezes a única alternativa) que consertar.
O ato de reciclar também consome energia e nem sempre camisetas feitas a partir de garrafas pet são uma boa solução já que carregam nelas (fruto do processo de reciclagem), elementos químicos que podem ser venenosos. Aliás, muito do que consideramos reciclagem, não passa de “downcycling”, ou seja, empurrar o problema para frente. Reciclar seria transformar por exemplo um livro, num outro livro, o que não acontece já que o papel vai perdendo qualidade quando reutilizado e tornando impossível a fabricação de algo com a mesma qualidade daquilo que o originou.
Interessante no livro dos dois autores porém é que o material utilizado foi o Durabook, que permite que o livro (além de ser totalmente a prova d’água), seja de fato reciclável eternamente, ou seja, basta triturá-lo para que seja possível sua reutilização na fabricação de um novo livro…infinitamente.
O que este livro tem a ver com comida ? Desperdício = comida. Tudo o que desperdiçamos poderia ser deixado de produzir ou ainda, seguir as regras da Natureza que permitem que este planeta exista ha mais de 4 bilhões de anos. O resíduo de uma espécie é o alimento de outra.

 

7) Rebuilding the foodshed – Philip Ackerman-Leist (2013):

Você já parou para pensar que um sistema de agricultura industrial consome uma enorme quantidade de energia? Petróleo para mover máquinas, derivados de petróleo para produzir fertilizantes, herbicidas entre outros insumos, petróleo para embalar, petróleo para transportar. Na verdade, só nos EUA, injetamos no sistema de produção de comida, praticamente 10 vezes mais energia do que retiramos (em forma de calorias que vão alimentar nossas células).
Todo o sistema de comida, composto por inúmeros elementos que vão desde o agricultor, passando pelo transporte, armazenamento, distribuição e finalmente consumo, terminando muitas vezes direto no lixo, sem passar por nossos estômagos (veja livro de Tristran Stuart que citei acima) parece apontar numa direção ilógica. Consumir mais energia do que produz.
O autor explora toda a cadeia de forma crítica, apontando soluções que vão do óbvio ao menos óbvio. Passando por compostagem até técnicas de cozinha trazendo uma importante reflexão sobre a origem do alimento e as consequências desta crescente desconexão entre o que comemos e nosso conhecimento sobre o food-system.

 

E aí? Ficou interessad@ pelas referências? Conhece mais conteúdos sobre o assunto? Deixe seus pitacos abaixo!

Bons Pitacos!

 

Pitacos por:

Eduardo Shimahara

Conhecido como “Shima”, é Paulistano, 42 anos. Já foi Engenheiro Mecânico e liderou equipes no Brasil, Espanha e França. Aos 30 anos largou a carreira e se juntou a um pequeno grupo de consultoria que posteriormente acabou se tornando o 6o maior grupo de educação superior privado do país. Aos 40, numa nova guinada, largou tudo, co-fundou com 3 amigos o coletivo educ-acao.com que deu a volta ao mundo visitando 13 espaços de aprendizagem. A experiência virou um livro para Free-Download. Hoje, mora com a família na Cidade do Cabo, África do Sul, numa mistura de sabático e estudo, onde é um dos alunos que está concluindo o Mestrado no Sustainability Institute. Seu tema de tese: comida.

Imagem: Fotos © Marcelo Curia / MDS