10 referências de teologia (para cristãos rebeldes)

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Pitacodemia mais uma vez no ar! Trazendo pitacos e espalhando pelas redes o conhecimento das pessoas.

E o tema dessa semana está bem interessante: Teologia. Referências trazidas pelo pesquisador Silas Fiorotti de obras que tratam sobre o tema, mas em uma perspectiva um tanto diferenciada: uma teologia para reflexão de cristãos rebeldes!

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Vale lembrar a tod@s @s leitor@s que esses pitacos refletem uma contribuição de um ponto de vista – como acreditamos ser importante ter, e sempre de tod@s. Outras perspectivas e convicções dentro do campo da teologia, em especial referências de outras matrizes religiosas, são extremamente bem vindas para futuros pitacos! ;) Pitaquem!

Bom, deixemos a palavra com Silas que vai explicar melhor a fundamentação de seus pitacos e, claro, dá-los aqui para nós! Bons pitacos!

Lutero, um dos precursores do protestantismo.

Lutero, um dos precursores do protestantismo.

Elaborar qualquer lista de dez livros, ainda mais dez livros de rebeldia religiosa, cristã ou coisa do tipo, é sempre uma tarefa ingrata. Esse foi o desafio lançado pelo meu amigo Guilherme Falleiros. Eu já listei e escrevi resenhas de vinte livros, lançados recentemente, que supostamente nenhum pastor evangélico recomendaria, estas resenhas estão no livro Rebeldia Evangélica.

Dessa vez, eu lembrei de outros livros que de alguma forma marcaram minha trajetória como evangélico e estudante de teologia. Não farei grandes comentários sobre os livros, só uma coisa aqui e outra ali, só para destacar alguns aspectos destas obras. Muitos crentes dirão que a própria Bíblia é o livro mais rebelde. Eu costumo dizer que a rebeldia está em ler a Bíblia em sua diversidade sem obrigar-se a homogeneizar tudo nem subalternizar ainda mais as vozes marginais contidas nela. Acredito que estas obras ajudaram-me neste sentido.

Calvino

Calvino

Vamos aos pitacos:

1) A liberdade cristã de José Comblin (Vozes, 1977).

José Comblin (1923-2011) foi um teólogo extremamente provocativo, capaz de ser crítico até mesmo aos desenvolvimentos da teologia da libertação da qual foi um dos grandes expoentes. Poderia ter citado outras obras de Comblin, como Teologia da cidade, Antropologia cristã, ou Cristãos rumo ao século XXI. Mas destaco que, no livreto A liberdade cristã, Comblin finaliza com a seguinte provocação: “A libertação não consiste numa mudança de estruturas sociais, o que teria por consequência a pura substituição de certos grupos dominantes por outros sem mudar o valor fundamental que é a segurança. Uma humanidade livre é uma humanidade que se deixa interpelar por todos os homens que não lhe oferecem nenhum interesse, nenhum valor, que não oferecem nenhum poder novo, nenhuma garantia, mas apenas riscos e ameaças de perturbação.”

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2) Por trás das palavras de Carlos Mesters (Vozes, 1974).

Para o querido frei Carlos Mesters, que inspirou e continua inspirando diversos biblistas, não basta descobrir o sentido das palavras de Deus, “estas palavras querem alguma coisa de nós. Querem iniciar uma conversa. Querem retomar uma conversa interrompida. Querem imprimir um sentido à vida.”

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3) Pelas trilhas do mundo, a caminho do Reino de Julio de Santa Ana (Imprensa Metodista, 1985).

A grande contribuição de Julio de Santa Ana, no livro Pelas trilhas do mundo, a caminho do Reino, vai no sentido de indicar que não é necessário nenhum sinal miraculoso para se conhecer a vontade de Deus, mas para conhecê-la é preciso entender os “sinais implícitos” nos acontecimentos históricos e do cotidiano.

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4) Da esperança de Rubem Alves (Papirus, 1987).

Rubem Alves (1933-2014) foi o nosso maior teólogo evangélico. A igreja evangélica não o suportou e ele também não suportou a igreja evangélica, mas não deixou de dizer coisas até então inauditas. Sua própria trajetória é paradigmática, no sentido de mostrar como o meio evangélico é capaz de perseguir e excluir os crentes mais brilhantes. Rubem Alves denunciou sua igreja e a moral sexual protestante brasileira como um todo no livro Protestantismo e repressão. Eu destaco o prefácio primoroso do livro Da esperança, intitulado Sobre deuses e caquis. Neste prefácio o Rubem abriu seu coração: “As Escrituras me eram Sagradas somente porque elas diziam em linguagem poética aquilo que, dentro de mim, já era um gemido inarticulado: revelação dos meus desejos, do Thánatos que me habita, da Vida que me faz brincar e lutar.”

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5) A Reforma Protestante e a Teologia da Libertação de Richard Shaull (Pendão Real, 1993).

O norte-americano Richard Shaull (1919-2002) foi o mestre de Rubem Alves e tantos outros, atuou no Brasil por dez anos (1952-62) e deixou um grande legado para os cristãos brasileiros. No livro A Reforma Protestante e a Teologia da Libertação, Shaull não deixa de valorizar o legado dos reformadores radicais e busca os sinais deste legado em nossos dias: “Onde quer que novas comunidades de fé se formem entre os pobres e aqueles que se solidarizam com eles, entre as vítimas do racismo e sexismo, ou em qualquer outro lugar na luta pela paz e pela justiça hoje, a experiência e o testemunho dos reformadores radicais são recriados em nosso tempo.”

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6) Missão transformadora de David J. Bosch (Sinodal, 2002).

O teólogo sul-africano David J. Bosch (1929-1992) foi um daqueles evangélicos, talvez um dos poucos, que produziu uma obra crítica em relação às missões modernas. No clássico livro Missão transformadora, de 1991, Bosch apontou que além do alarde desmedido e do orgulho na exaltação das grandes realizações dos missionários evangélicos, o aspecto ainda mais negativo de muitos defensores da missão diz respeito à total incapacidade crítica frente à própria cultura ou incapacidade de apreciar outras culturas.

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7) Dicionário de teologia feminista organizado por Elisabeth Gössmann (Vozes, 1997).

Destaco aqui o verbete Jesus Cristo, escrito pela teóloga Doris Strahm. Ela apresenta primeiramente a crítica feminista à cristologia, depois apresenta algumas reinterpretações a partir da visão da mulher e alguns elementos estruturais das cristologias feministas. Com relação à relativização de Jesus Cristo como única e definitiva encarnação, Strahm afirma que: “a fidelidade à fé cristã não se mede (simplesmente) pela fixação a fórmulas antigas marcadas por um contexto histórico do passado, mas sim pelo fato de ela possibilitar em nosso atual contexto a experiência da libertação e da salvação que estas fórmulas implicam.”

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8) Rompendo o silêncio: uma interpretação feminista do mal de Ivone Gebara (Vozes, 2000).

O mal sofrido particularmente pelas mulheres em seu corpo, em casa, e dentro das estruturas sociais como as igrejas, foi, segundo a teóloga Ivone Gebara, herdado da família, da cultura e do cristianismo. A reflexão de Gebara partiu da acusação do sistema patriarcal para a afirmação da responsabilidade pessoal de todos na produção do mal.

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9) Eunucos pelo reino de Deus: mulheres, sexualidade e Igreja Católica de Uta Ranke-Heinemann (Rosa dos Tempos, 1996).

No livro Eunucos pelo reino de Deus: mulheres, sexualidade e Igreja Católica a teóloga alemã Uta Ranke-Heinemann, autora que ficou famosa porque perdeu sua cátedra na Universidade de Heidelberg após a publicação deste livro, em 1988, faz uma pesquisa monumental sobre as regras da Igreja em relação ao corpo da mulher, desde as supostas raízes pré-cristãs até os dias atuais.

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10) A vinda do Cristo cósmico de Matthew Fox (Record, 1995).

O teólogo norte-americano Matthew Fox propõe o chamado “ecumenismo profundo” que convoca a sabedoria de todas as religiões do mundo em torno da doutrina do Cristo Cósmico que, por sua vez, seria “o ‘padrão que interliga’ todos os átomos e galáxias do universo, um padrão de amor divino e justiça que todas as criaturas e seres humanos trazem dentro de si.”

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Curtiu os pitacos? Tem mais referências para adicionar no assunto? Deixe seus comentários abaixo!

Bons Pitacos e até a próxima!

 

Pitacos por:

Silas Fiorotti

Cientista social, doutorando em Antropologia Social pela USP e articulista da revista Novos Diálogos. É autor de Rebeldia Evangélica: os 20 livros que nenhum pastor recomenda.